Blog Infectoatual

Assunto: Bioterrorismo 

Link: http://infectoatual.wordpress.com/2013/04/29/entrevista-sobre-bioterrorismo-com-o-medico-infectologista-cesar-barros/

O médico infectologista César Barros sempre deu atenção à saúde pública. Formado em infectologia pelo Instituto de Infectologia Emílio Ribas, em novembro de 2012 recebeu o título de especialista em Medicina Tropical e Saúde do Viajante (CTropMed®) após rigorosa prova da ASTM&H (Associação Americana de Medicina Tropical e Higiene – EUA). Preocupado com a segurança de nosso país, que sediará a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos, ele elaborou, recentemente, um programa de contingência de biossegurança e o bioterrorismo. O blog infectoatual, interessado em tudo que é infectologia, realizou a entrevista abaixo.

 


Dr. César, como surgiu o interesse pelo estudo do bioterrorismo?



A ideia de investigar o campo de bioterrorismo surgiu despretensiosamente enquanto eu visitava o Museu de Arte Moderna de Nova York em 2012. Após mais um rigoroso controle de fluxo ao qual eu acabara de ser submetido para entrar no prédio, brotaram reflexões sobre terrorismo. Perguntei-me até que ponto aquela preocupação era necessária e em que nível estava a ansiedade no inconsciente coletivo. O policiamento ostensivo em espaços públicos, metrô e aeroportos chamava a atenção. Inevitavelmente acabei por fazer comparação entre a sociedade americana e brasileira. Questionei-me se estávamos livres. Ao associar os grandes eventos esportivos que estão por vir, fez sentido desenvolver uma relação entre o Brasil e terrorismo.  Em virtude da minha especialidade acabei deparando-me com a ramificação do tema, o bioterrorismo. Resolvi fazer uma pesquisa na internet e vi que não havia debate no país, senão breves citações. Comentei durante uma conversa com John David, professor de Harvard, e ele me encorajou a seguir adiante nas pesquisas.  Foi neste momento que eu resolvi me aprofundar neste estudo. Contribuíram também para a construção deste pensamento experiências prévias, as aulas de medicina tropical durante uma pós-graduação no Peru e um episódio de suspeita de febre hemorrágica viral no Emílio Ribas em 2011.

 

Quais são as ameaças que enfrentamos hoje no mundo?



Com o avanço e a acessibilidade de tecnologias, laboratórios com estruturas relativamente simples são capazes de manipular amostras biológicas a ponto de torná-las armas poderosas. Nas mãos de pessoas erradas, como governos e grupos extremistas, pode representar um risco incalculável para as sociedades. Vários agentes biológicos são passíveis de manipulação, mas aqueles que mais causariam danos, tanto do ponto de vista de saúde pública como social seriam os responsáveis pelas febres hemorrágicas virais, varíola, botulismo, peste, antraz e tularemia. Além dos biológicos, materiais químicos, radioativos, nucleares e explosivos são passíveis de utilização pelos terroristas.

 


O Brasil, por sediar a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos, é um possível alvo de ataques bioterroristas?



Sem sombra de dúvidas. Já vimos episódios de terrorismo no passado durante eventos festivos, como nas Olimpíadas de Atlanta (EUA) e de Monique (Alemanha). A corrida de Boston é o último exemplo. Essa preocupação é tão real no Brasil que o próprio Ministério da Justiça está desenvolvendo juntamente com a embaixada americana programas de capacitação para as polícias federal, militar e civil. Elas estão recebendo aulas de combate ao terrorismo, inclusive identificação de materiais biológicos.

Estamos preparados para um ataque bioterrorista?



Estamos a caminho. Do ponto de vista de segurança pública muito já está sendo feito. O treinamento das polícias é um bom exemplo. No campo da saúde, demos o primeiro passo com a capacitação das vigilâncias epidemiológicas e sanitárias para eventos em massa. A formulação do programa de contingência de bioterrorismo para o IIER no estado São Paulo é uma outra frente. Esta deve ser levada para os outros estados a fim de capacitar os profissionais da saúde e hospitais no atendimento singular desta área. Do ponto de vista jurídico falta uma legislação específica para julgar e punir atos de terrorismo. Está em debate no Congresso Nacional o novo Código Penal que deve contemplar essa situação, mas não sabemos quando será aprovado.





O Brasil já foi alvo de bioterrorismo?



O bioterrorismo, além de afetar humano, pode ser direcionado à agricultura e pecuária. No final da década de 80, o Brasil teve uma queda vertiginosa na produção de cacau. Há suspeita que este episódio esteja ligado a um evento bioterrorista. Nesta época o Nordeste assistiu uma das maiores destruições de plantação de cacau pela praga vassoura-de-bruxa, uma doença dos cacaueros causada pelo fungo Moniliophthora perniciosa. Evidências sugerem que a introdução da doença tenha sido intencional. A primeira introdução foi ao longo de uma estrada, enquanto que a segunda foi de ao longo de um rio. Esta forma de atingir a borda das plantações é muito diferente ao padrão de disseminação natural da doença, em que acomete-se do centro para a periferia. Já em 1991, os cientistas especularam em um artigo na revista New Scientist que alguém tinha deliberadamente introduzido a doença na região. Mas por muito tempo não houve provas substanciais. Até que a revista Veja publicou uma reportagem em junho de 2006 em que um homem confessou ter introduzido a doença por motivos políticos. Ele teria ligação com o Partido dos Trabalhadores e estava atendendo a grupos que tinham como objetivo minar o poder das elites tradicionais. Maiores detalhes desta história podem ser obtidos no artigo de Shawn Smallman, “Witches’ Broom: the mystery of chocolate and bioterrorism in Brazil.” (http://introtoglobalstudies.com/2012/03/witches-broom-the-mystery-of-chocolate-and-bioterrorism-in-brazil/ )

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